Expedição ao Monte Roraima

Desbravar o Monte Roraima em uma expedição é uma experiência única, inesquecível e a qual exige certa capacidade para transformar em palavras toda a vivência de dias na montanha.

Para mim, o começo dessa aventura se deu muito antes de começar a trilha que me levaria ao topo de uma das montanhas mais antigas do mundo; começando ao colocar o pé porta a fora, em uma maratona de voos, conexões e km rodados!

Tendo como ponto de partida a cidade de Boa Vista, capital do estado de Roraima, segui de carro para Santa Elena de Uairén, cidade Venezuelana a 15 KM da fronteira brasileira e fui diretamente para o Hotel Waküpata, um recanto em meio a natureza, bem diferente da dura realidade venezuelana, onde eu conheceria os guias que me acompanhariam e o operador turístico que havia me convidado para a aventura.

Para ingressar na Venezuela por via terrestre, você necessita primeiro “dar saída” no posto da Policia Federal, que fica do lado brasileiro, na cidade de Pacaraima. O posto funciona das 8hs às 17hs e é bom não chegar em cima da hora, nem com pressa, caso contrário corre o risco de ter que voltar no dia seguinte, já que a simpatia não chegou naquela ponta do país ainda. O posto está sempre cheio pelo fato de muitos venezuelanos estarem nos trâmites para imigrarem ao Brasil, porém brasileiros tem preferência e um atendimento menos pior.

Depois de algumas perguntas sobre sua viagem você recebe o carimbo de saída e segue para o lado venezuelano, onde recebe o carimbo de entrada na imigração. Apesar de ser necessário levar a carteira internacional de vacinação contra febre amarela, em momento algum me foi pedido, mas…por via das dúvidas tenha sempre em mãos.

Santa Elena de Uairén é uma cidade muito simples, bagunçada como quase toda fronteira e diga-se de passagem não é das com a melhor qualidade sanitária do mundo! Porém inevitavelmente sua expedição começa ali!
Ainda no hotel houve a apresentação de todos durante o jantar, onde além do anfitrião da agência, conheci os dois guias de montanha Said e Kervin, a guia/tradutora Fabióla e posteriormente vim a conhecer a família de indígenas que nos acompanhariam rumo a montanha.

Neste momento, realiza-se o briefing da expedição e faz-se o check list do equipamento. Apesar de o Monte Roraima ser uma montanha sem muitas exigências técnicas, esquecer algo simples muitas vezes pode tornar a experiência desconfortável, por isso caso haja alguma necessidade ainda é possível sanar na cidade.
Também aproveita-se a passagem por Santa Elena para comprar maços de dinheiro, literalmente!
no carro ao monte roraima
Dali, após a logística concluída embarcamos em um jipe 4X4, passamos por San Francisco de Yuruani e fomos rumo a Aldeia Paraitepuy, porta de entrada ao Monte Roraima e onde começaria a caminhada em si.
Dormimos nas barracas (que são disponibilizados pela agência) sob telhados e na manhã seguinte, após ver o Monte Roraima ser iluminado pelos primeiros raios de sol, tomamos café, fizemos o registro de entrada no parque e começamos a jornada.

A trilha começa praticamente plana e logo desce, porém tratando-se de uma montanha, tudo que desce precisa obrigatoriamente subir e nem adianta ter pressa! No meu tempo, fui me preparando pro que viria nos próximos dias.
Depois desse susto, digo descida e subida bem acentuados, quase todo o caminho é plano, até as proximidades do primeiro acampamento, as retas descampadas e intermináveis vez ou outra dão lugar a poucas aglomerações de árvores que se reúnem ao redor de caminhos d`água.

Por falar em água, uma garrafa de 1 litro da conta do recado na caminhada, podendo ser reabastecida de tempos em tempos pelos córregos que descem do Kukenan ou do próprio Monte Roraima mais adiante. Pra evitar qualquer problema basta acrescentar uma pílula de cloro, esperar agir e matar a sede!
No topo não é mais necessário purificar a água, sendo uma das mais puras do mundo devido a distância de fontes poluidoras.

Cheguei ao fim da tarde no acampamento às margens do Rio Tek. Minha barraca montada de frente para o Kukenan, uma montanha linda, suco gelado e foi hora de descobrir como estavam os meus pés. Uma palmilha errada foi o suficiente pra fazer uma bolha gigante em cada calcanhar.
No mais,  apenas o cansaço de caminhar 12KM carregando 18KG. Estava bem, firme para o próximo dia, mas o peso tinha sido algo desconfortável no decorrer do dia e pensar em todo o aclive que viria pela frente me preocupava.

No geral as pessoas não sobem com muito peso. Sobe-se leve, até porque não se necessita de muita coisa ou contrata-se um porteador que levará a sua mochila cargueira até o próximo acampamento. Porém eu estava carregando equipamento fotográfico, drone, baterias extra… os quais ninguém melhor do que eu para cuidar e que deveriam estar a mão pra utilizar na oportunidade necessária.

O Rio Tek é o local onde toma-se banho e foi ali que pela primeira vez senti o quão gelada é aquela água!
Depois de um dia de sol a pino a água da montanha ainda conseguia me deixar mais travado do que os Km´s caminhados, mas é revigorante. Você se sente literalmente lavado e toda tensão escorre por entre as pedras.
Apreciei a vista, cochilei por algumas horas na barraca e quando fui acordado para jantar, já em meio a escuridão, vi um acampamento repleto de gente, de várias partes do Brasil e do mundo, com barracas de várias agências espalhadas por ai.

Contei sobre a chuva que peguei durante a trilha, mas o índios me garantiram que não choveu ali, eles que chegaram muito antes do que eu. Outras pessoas que chegaram após também confirmaram que não choveu sobre eles, assim, me dizem que fui abençoado pela montanha, como uma purificação de boas vindas.
Era talvez o Monte Roraima tornando meu momento único, se fazendo uma montanha mística, quem saberá?!

O primeiro acampamento é uma grande área descampada, então tem espaço pra todo mundo. Cada agência, através dos indígenas que as acompanham, já possuem sua área de certa forma definida. Nosso grupo se reuniu pra jantar uma macarronada com carne moída, conversamos sobre a realidade do país, sobre o turismo no Monte Roraima e conheci a formiga de fogo, que transformada em iguaria pelos índios, é daquelas situações que fazem uma viagem ser única!

Quando as luzes do acampamento Rio Tëk começaram a se apagar e as pessoas foram se entocando nas barracas começou o espetáculo. Com toda certeza foi o céu mais lindo que já vi até hoje! Distante suficiente da poluição de nuvens tóxicas ou da luminosidade das cidades, estar no meio do nada proporciona a satisfação de um céu limpo, nítido, com mais estrelas do que conseguimos imaginar que possam existir no céu.

Eu, Said e Fabióla colocamos nossos isolantes fora das barracas, deitamos e ficamos contemplando aquela imensidão, que a cada explosão de algum objeto contra a atmosfera terrestre instigava os sonhadores a fazerem um pedido!

Na manhã seguinte, por volta das 7hs, todo o acampamento do Rio Tëk começou a fervilhar novamente, com todo mundo arrumando suas coisas, pessoal tomando café e hora de começar mais um dia de caminhada, onde a poucos metros atravessamos pela primeira vez um rio, com água gelada pela canela!

Nesse dia caminhamos por mais 11 Km, começando a encarar menos descidas e subidas mais acentuadas.
Passamos logo cedo pela Eremita de Santa Maria de TokWono, uma igreja de pedra do tempo em que os missionários jesuítas se intrometeram na cultura dos índios  Pemon e Macuxis, depois atravessamos o Rio Kukenan.

Aqui a travessia é sempre uma surpresa, podendo ser um desafio diferente dependendo da quantidade de chuva das últimas horas, já que toda a água que cai no topo da montanha e em seu entorno acaba passando por aqui.
Com água pelos joelhos, cuidando com alguns buracos e com as pedras lisas, atravessei pedindo aos céus pra não cair, já que eu seguia carregando todo o meu equipamento.

Atravessei a salvo, chegando ao acampamento do Rio Kukenan. Este muitas vezes é o acampamento ao final do primeiro dia. Muitos grupos acabam saindo da entrada do parque e pernoitando aqui, concluindo a travessia dos rios. Porém em nossa logística, passamos reto por este acampamento, que estava vazio e começamos a ladeira.

Você começa a subir a savana descampada, aos poucos vai encontrando alguns poucos arbustos, a pastagem vai se tornando mais esparsa e você percebe que está chegando a hora, você está seguindo para o campo base, cada vez mais próximo dos pés da montanha sagrada.

Durante a expedição você percebe a agilidade dos indígenas, que atuam de staff pra todas as agências.
Eles são os últimos a sair, porque ficam pra trás desmontando, limpando e organizando o acampamento, passam por você no decorrer da trilha com a naturalidade de um corredor queniano e quando você chega no próximo ponto de parada está o acampamento montado, a refeição encaminhada e tudo sem suor!

Pela subida, nas proximidades do Acampamento Militar, encontrei o almoço sendo encaminhado, uma especie de pão sírio do tamanho de uma massa de pizza, enrolado e recheado com atum, ervilha e afins misteriosos!
Pra dizer a verdade não é ruim, é uma alimentação bem saudável, que mesmo com uma aparência simples sacia a fome.

A subida prossegue e aqui você começa a pensar. Neste estágio as pessoas já descobriram que o melhor é cada um seguir o seu ritmo e isso significa que a probabilidade de caminhar sozinho é muito grande. A subida é única e não há risco de se perder, então basta subir, cada um absorto em seu mundo de pensamentos e reflexões, um pé na frente do outro, pouco a pouco como dizem os índios.

Poco-a-Poco… quando você entende o significado disso, seja na montanha ou na vida, tudo flui melhor.

Esse dia talvez tenha o trajeto mais duro, porque já passou a empolgação inicial da expedição, você já está no ritmo da aventura, cansado e quando fica sozinho a sua cabeça grita tudo o que bem deseja.
Você não tem dificuldades técnicas com as quais se entreter, então é só a luta do cansaço físico concorrendo lugar com as filosofias de vida, com os desejos futuros, com os agradecimentos e perdões que a vida exige que você diga, mesmo que seja para ninguém ouvir, mas o universo ouviu. E nesse momento, olhando pra você ele vê a verdade.

E foi sendo açoitado pelo vento, sol queimando (mesmo com protetor solar), que o peso da mochila começou a me levar ao limite. Minha água até então sempre suficiente acabou e, apesar de não me dar por vencido, eu precisei parar. Já passava do meio da tarde e pelo caminho encontrei um arbusto de não mais que 50cm, quase sem nenhuma folha, que definitivamente seria meu abrigo. Me joguei pra debaixo, deitado no chão, quase lambendo o fundo do cantil e ouvindo o que tinha de mais hard no iPod. A cabeça sempre fervilhando de pensamentos, pulando de um pra outro, o corpo foi relaxando e cochilei por uns minutos.

Uns 20, 30, 40 minutos depois, não sei, acordei, olhei pro céu, o sol estava começando a cair por trás do Monte Roraima, com a temperatura mais agradável resolvi levantar e seguir, passo a passo.
Não sei se alguém me viu ali “relaxando”, provavelmente alguém passou e viu o mendigo da montanha, mas enfim, segui me arrastando, subi como pude e aos poucos fui me aproximando do final da subida, vendo o Maverick cada vez mais nítido e próximo.

Mais alguns passos sobre as pedras soltas e vi Kervin descendo, vindo em minha direção, seguindo para não sei onde. Parou na minha frente e disse: “-Dá aqui, eu levo.
Não entendi. Não esperava ouvir aquilo, tanto que meu cérebro não assimilou!
“-Dá aqui a mochila, eu levo pra você.”
Me falou com o braço estendido pra receber minha mochila. Que alento, caramba! Pegou, saiu andando morro a cima e eu fui atrás, com uma gás dobrado.
Estávamos muito próximos do Campo Base, a poucos metros, nada intransponível bem verdade, mas a atitude, mais do que uma ajuda, foi de uma generosidade sem tamanho. Minha eterna gratidão pra quem me estende a mão.

O Campo Base fervilha! Todos os grupos agora precisam se organizar em um espaço muito menor, as barracas ficam muito mais próximas, a gente se esbarra o tempo inteiro com todo mundo…
O banho é em uma cachoeira que desce a montanha, água ainda mais gelada, pura, cada vez estamos mais próximos da montanha sagrada.
Nessa noite as luzes se apagam mais cedo, as pessoas falam menos, existe a expectativa do dia seguinte, uma mistura de nervosismo e ansiedade embriagados pelo cansaço.


Por alguns instantes depois da janta namorei o céu, dormi e pela madrugada descobri que meu isolante inflável estava “furado” (fiz um review AQUI).
Acordei por volta das 6hs, com as primeiras movimentações do acampamento, vendo os primeiros raios de sol atingirem o topo da montanha, o lugar onde eu desejava estar dentro de algumas horas.

A comida foi leve, o café forte e o vento gelado… Depois de já ter agradecido ao Kervin pelo dia anterior, perguntei se era possível contratar alguém ali naquele ponto pra levar minha mochila adiante. Ele se disponibilizou e fechamos.
Foi a melhor decisão que tomei e descobri isso instantes depois, quando comecei a subida final do Monte Roraima.
A gente segue por uma escalaminhada, com degraus gigantes de terra multi-colorida, caminhos lapidados pelas águas da montanha, marcas que desciam o morro como veias da passagem do tempo.

Subi, cruzei com brasileiros, europeus, americanos, desci, escorreguei, me embrenhei pela pequena floresta da base e cheguei ao alcance da rocha pela primeira vez.
Dizem os índios que ao chegar nos pés da montanha, devemos tocá-la e agradecer a oportunidade.

Como todos, fiz minha prece, agradeci pelo momento que eu estava vivendo, por tudo e por todos que me proporcionaram chegar onde eu estava e segui minha jornada.
Pelo caminho encontrei os famosos sapinhos pretos (Oreophrynella nigra), uma espécie de anfíbio totalmente endêmica do Monte Roraima. O sapo possui uma barriga alaranjada e de tão desajeitado é incapaz de saltar, sendo ainda totalmente primitivo, já que o ambiente não exigiu sua evolução.

Passados os miradores, enfim era hora de encarar a rampa, único acesso para o topo da montanha. Como último desafio do caminho ao cume, passamos pelo Paso de las Lágrimas, uma pequena queda d´água, que dias mais dias menos, se precipita do topo do Monte Roraima e caí sobre a trilha. Dali, foi apenas seguir passo a passo, até alcançar o incrível e tão desejado cume do tepui.

Chegar ao topo do Monte Roraima é uma realização indescritível, seja pela aparência totalmente inóspita e exótica do lugar, quanto pela quantidade de sensações, físicas, emocionais, espirituais… não trata-se de religiosidade, mas de estar imerso na cultura indígena local, de se integrar a natureza e ser apenas um ínfimo grão, sendo preenchido por uma satisfação gigante.

Enquanto estava parado fazendo umas imagens logo no final da rampa, vi pessoas que ao chegar se emocionavam, outras que se deitavam ao chão de tão cansadas, aqueles que comemoravam, cada qual vive sua experiência particular e por fim todos trilham juntos.

Ficamos no Hotel (como são chamados os refúgios) San Francisco, que nada mais é do que uma pequena caverna, com capacidade para não mais do que 5 ou 6 barracas. Como nosso grupo era bem pequeno, tornou-se um lugar bem proporcional e mais reservado, comparando-se a agitação dos outros refúgios, que por serem maiores acabam recebendo um maior número de grupos.

Cheguei ao topo com o tempo nublando e assim perdurou. Chuva durante a noite, durante todo o dia seguinte, mas mesmo assim saímos para dar uma volta pela grande mesa pré-histórica.
A névoa que se espalhava fazia o cenário ficar ainda mais misterioso, cobrindo e descortinando partes do Roraima, onde por vezes podíamos ver a imensidão da planície e em outros momentos não se enxergava quem estava poucos metros a frente.

Seus sons, seu silêncio, suas névoas, uma imensidão repleta de pedras com formas, muita água… uma montanha viva perdida no tempo, que faz os mais céticos viajantes se aventurarem pelos devaneios da mente e pelos sussurros do coração, despertando sensações adormecidas, fazendo que repensemos valores e nos tornemos mais fortes diante da nossa fragilidade.

Pelo caminho vi plantas carnívoras, tomei a água pura da chuva, caminhei sobre cristais e vi uma cachoeira ter seu curso mudado pelo Timby, como era chamado o indígena que nos acompanhava desde o começo.
O que eram duas quedas d`água, simplesmente se converteram em uma grande cascata, esse era o Salto Catedral.

Pelo topo existem diversos “pontos turísticos” e conhecer todos depende do clima, de quantos dias ficará no topo e obviamente da sua disposição. Os pontos mais distantes são a tríplice fronteira, onde um marco define a fronteira entre Brasil, Guiana e Venezuela e a Proa, que é a “ponta” do Monte Roraima.
Por essa região também fica o Lago Gladys, onde pela história inclusive existe em algum lugar um helicóptero caído desde os anos 90.

Antes de eu ir dormir com certo desapontamento, depois de um dia que literalmente foi por água abaixo, os guias me falaram que pela manhã, muito cedo, nuvens e névoa costumam descortinar a montanha, deixando por alguns instantes toda sua beleza e imponência a mostra. Era algo que costumava acontecer muito cedo e se eu desejasse poderíamos seguir antes de amanhecer para A Janela (La Ventana) e esperar que com sorte isso ocorresse.

Concordei, desde que não estivesse chovendo e assim, como um presente, aconteceu!
Fui acordado por volta das 5hs da manhã, com um céu repleto de estrelas e depois de um café forte começamos a caminhada.
Botas molhadas, frio, muita umidade e logo estávamos em meio a tradicional névoa, logo sendo recebidos pelos chuviscos. Depois de saltar pedra sobre pedra, chegamos na margem da montanha, olhei para o abismo e ele não olhou de volta. Estava tudo cerrado, tempo fechado, visual zero.

Seguimos para A Janela, que estava igualmente nublada, procuramos um lugar para nos abrigarmos da garoa e fizemos um pequeno lanche. Após uns 30 minutos, quando a caminhada já estava sendo dada por perdida, pode-se ver ao longe uma mancha azul, que em instantes foi crescendo e aproximando-se.

O tempo estava limpando e com a mesma velocidade que ocorrem as emoções no topo do Monte Roraima, as nuvens desapareceram, desceram, sumiram e tudo foi lindo demais! O sol brilhou, meus olhos brilharam, respirei fundo e aproveitei pra soltar o drone. Não havia mais frio nem cansaço, era apenas eu, meus companheiros de caminhada diante da face linda da montanha sorrindo para nós.

Sobrevoei filmando, fotografando, saquei as câmeras, o celular e sim, teve selfie! Fotografei em tudo que era ângulo possível, mas também me dei tempo para respirar fundo, sentir o ar puro e gelado entrando e percorrendo meu corpo, compreendi a dor da caminhada que me fez valorizar aquele momento e quis muito, quero muito, compartilhar! Cheguei o mais próximo que meu bom senso permitiu da beira do penhasco, vi as cachoeiras formadas ali e lá longe no Kukenan pelas últimas chuvas.

É incrível! A vista, a sensação, a satisfação, mas tudo isso não durou muito e o horizonte limpo logo deu lugar a chegada de novas nuvens. Foi o nosso momento. Juntamos nossas coisas, seguimos nossa caminhada, mas pra mim estava satisfeito com a expedição. Concluí que aquele havia sido o ápice e realmente foi.

Retornamos para o hotel, passando pela beira do abismo, contornando as jacuzzis de águas limpas e geladas e seguindo por uma trilha invisível sobre as pedras. Depois do almoço percorremos um pouco da planície, descobrindo as belezas que se mostram apenas para os olhos que estão abertos e fomos até próximo  a rocha Maverick.

Como o tempo estava fechando acabamos não subindo, então resolvemos sentar em meio ao nada e ficamos vendo o tempo passar, conversando sobre o vai e vem de aventureiros, ouvi histórias e lendas, fui instigado sobre lugares que não veria desta vez…
Aqueles minutos “sem objetivo”, contemplando a imensidão do topo do Monte Roraima eram como uma despedida, um último olhar apaixonado antes de uma partida sem data para o reencontro.

Aproveitei as últimas horas daquele dia pra descansar, fiz minha última refeição debaixo daquelas rochas, dormi novamente no meu isolante inflável furado e fui soterrado por toda sorte de sentimento: saudade de casa, da família, de comida normal (diga-se podrão, pé sujo!), necessidade de compartilhar minha satisfação… enfim, tudo que eu queria era descer correndo!

Na manhã seguinte, logo após o café, levantamos acampamento e começamos a jornada de volta.
Com o céu nublado, encaramos o Paso de las Lágrimas bem mais molhado, com bastante água caindo no caminho, também a quantidade de grupos descendo era razoável, o que fazia praticamente uma fila indiana por todo o caminho, onde você ultrapassava e mais a frente ao descansar era ultrapassado.

Embrenhados em meio a mini floresta tropical aos pés do Monte Roraima, neblina, umidade e lama fizeram parte de quase todo o caminho. Na base da montanha novamente, fiz meu pedido, que segundo a lenda é recebido pelo espírito sagrado da montanha, o índio guerreiro Makunaima.
Almoçamos em meio ao que antes foi o acampamento base, sob lonas improvisadas pra nos protegerem o minimo da chuva.
Em meio as refeições da expedições, durante os dias recebi também alguns chocolates, biscoitos e frutas pra ir beliscando durante o caminho. Complementei com barras de proteína e de cereais da Banana Brasil, que são leves, gostosas e fácil de comer em meio a trilha.

Engoli a comida e fiz um risco para baixo, sob chuva, vezes com vento, pelas trilhas de lama que outrora me foram caminhos de terra rachada. Por volta das 15:30hs cheguei ao Rio Kukenan, onde encontrei Timby, que veio estender sua mão amiga ajudando a atravessar o rio que estava um pouco mais agitado e volumoso.
Ele com água pela cintura, dando apoio e indicando sobre quais pedras deveria passar, novamente, passo a passo, pouco a pouco, atravessei mais esse desafio.

Mais, 30, 40 minutos e havia concluído o trajeto que antes havia levado 2 dias. Estava novamente no 1º acampamento, as margens do Rio Tëk, tomando uma cerveja venezuelana quente que comprei por ali, olhando para a montanha que acabará de me conquistar e estasiado com a jornada.

Ganhei novamente macarronada para o jantar (o staff sabia que era a comida que eu mais havia gostado e fizeram a gentileza). Dormi mais uma noite sobre o chão duro, mas já não ligando mais pra isso, com um saco de dormir parcialmente úmido pelo Paso de las Lágrimas e ansioso pelo “mundo exterior” onde eu chegaria no dia seguinte!

Acordei explodindo de alegria! Deixei o café da manhã de lado (imprudência, não façam isso em casa), avisei que sairia rumo a entrada do parque e saí caminhando. O sol estava raiando e eu ria sozinho pelo caminho, sem ninguém ainda nem a frente ou vindo atrás, aquele literalmente, por aquele momento, era o MEU caminho.

Novamente fiz minhas preces, ao espirito da montanha ou qualquer divindade que estivesse disposta a me ouvir aquela hora da manhã, conversei comigo mesmo, assumi objetivos, enfim, é uma experiência muito particular, inexplicável mesmo que eu quisesse descrever.

Aos poucos fui sendo ultrapassado, por quem tinha metade da minha idade como por quem deveria ter o dobro, segui meu ritmo e lá estava eu novamente na na entrada do parque.
Ganhei minha cerveja gelada de uma aposta, tive como todo mundo minha mochila revistada pelos guarda-parque, que procuram principalmente por cristais (caso encontrado a multa é alta), que não podem ser retirados da montanha, tirei minhas botas judiadas pra libertar meus pés mais judiados ainda e esperei nosso jeep.

A missão havia acabado. O que um dia foi um sonho havia se transformado em realização e agora tratava-se de história. Seguimos dali rumo a San Francisco de Yuruani (Kumarakapay), onde pôde-se comprar algumas lembrancinhas para trazer pra casa, partindo rumo a Santa Elena de Uairén, onde fizemos os trâmites de saída da Venezuela e de entrada no Brasil e seguimos mais 180 KM aproximadamente até Boa Vista/RR.

Abaixo o mapa do trekking, partindo de Paraitepuy, entrada do parque, até a chegada ao topo.

No total caminha-se aproximadamente 90 KM em 1 semana de expedição. Esse tempo pode ser maior dependendo do pacote que contratar, porém não influência muito o quanto caminhará a cada dia, apenas lhe oferece mais oportunidades pra esperar uma brecha caso tenha tempo ruim persistente no topo.

O tempo naquela região é algo muito volúvel, alternando entre sol a pino, chuva, tempestade, sol novamente, em questão de poucas horas e podendo ser diferente em várias partes da trilha, realmente é muito louco ver uma montanha que praticamente tem seu próprio clima!

A Expedição ao Monte Roraima PRA MIM, não foi algo tão espiritual como é pra muitas pessoas. Há quem se sinta tocado, liberto, se encontre, se perca, enfim, gente que deita na rocha pra se integrar, quem medite com cristais, enquanto pra mim foi uma viagem de experiência. Conversar e interagir com os locais muitíssimo mais do que com outros viajantes, entender a realidade deles, o sopro de vida que a montanha representa na vida dessas pessoas, pra mim isso foi transformador.

Claro, serviu pra me reforçar aspirações e convicções pessoais, como incentivo pra me libertar de “vícios” cotidianos aos quais a gente despende tempo e energia diariamente, obrigações desnecessárias para “viver bem”.
Exigimos demais de vida, dos outros, de nós mesmos todo dia o dia todo e a realidade é que não precisamos de muitas coisas, pessoas ou de inúmeras realizações pra termos uma vida plena. Entender isso é a torna a vida mais serena e satisfatória, compreensão que o caos da cidade trabalha incessantemente pra impedir que a gente assuma como verdade absoluta. Mas é isso, o Monte Roraima foi parte entre esse Ponto A e o Ponto B da minha vida.

A expedição ao Monte Roraima havia acabado. Passaria mais 2 dias na capital do estado de Roraima, aproveitando o merecido conforto no Zii Hotel que definitivamente me colocaria novamente no mundo real!
Internet, banho quente, BANHEIRO, cama super confortável, ao lado do shopping onde pode-se comer qualquer coisa… a montanha é incrível, mergulhar em uma expedição é sensacional, mas uma vida mundana equilibrada não faz mau nenhum!

Até breve Monte Roraima! Você marcou minha vida, minha pele e meu espirito, para sempre.

“Makunaima foi gerado pelos raios dourados do Sol que se fundiram aos raios prateados da Luz, refletidos em um lago. Hoje, Guardião do Monte Roraima, zela pelos espíritos dos pajés, que repousam depois de suas mortes, no fundo da terra transformados em cristais. Não grite na montanha perturbando o descanso sagrado, pois Makunaima fará o tempo nublar e chover como forma de afastar os intrusos.”

 JUNTE-SE A PRÓXIMA EXPEDIÇÃO

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