Hoje todo mundo é hipster, será?

A palavra americana hipster define uma tribo; pessoas que em seu estilo de vida gostam de roupas, músicas, comidas e atividades que não façam parte do gosto popular. Se você tem um “estilo próprio”, ouve bandas independentes, usa roupas vintage, curte cerveja e café artesanal, você provavelmente é considerado um hipster.

Na outra ponta desse universo está a mainstream, onde em uma tradução literal pode-se dizer que é a corrente popular, o restante do mundo, o estilo povão de ser, agir e apreciar.
Assim, pode-se dizer que hipsters não gostam de coisas da mainstream (populares) e pessoas normais não são hipsters.

Passamos o auge do rock, Beatles, Elvis, vimos a cena grunge surgir e se transformar em fumaça, vimos ou ouvimos falar dos hippies, Woodstock e sua insanidade nua, florida ou multicolorida… Tivemos o pop anos 80,90, que até hoje se converte em remixagens de baixa qualidade, passamos por uma infinidade de mudanças culturais, sociais, que faziam a multidão caminhar padronizada em uma moda comercial. Faziam?!

Depois de tudo isso, de muitas modas e modismos, “do fundo do baú” como dizem, existem aqueles saudosos, que como em um grito de sobrevivência tentam manter acessa a chama daqueles tempos, em uma cultura vintage que só consegue se agarrar em flash backs de um tempo que por mais bacana que tenha sido, já passou.

Vale exagerar no modo de se vestir, caprichar nos filtros das fotos pra dar aquele efeito tumblr, andar com uma câmera de fotografia em filme pendurada no pescoço – se for uma Leica mais “top” ainda, enquadra você no grupo de hipster classe A.

Me enche o saco ver todo mundo querendo ser diferente e por fim sendo igual. As pessoas caminham para um rumo contrário ao da coletividade, mesmo estes sendo os principais hasteadores desta bandeira. Cada vez mais tornam obrigatória a escolha de um lado, uma causa, um grupo, as pessoas se concentram em minorias, se definem em “estilos”, tribos.

Resumidamente, entre os hipsters atuais, cheios de estilo, podemos fazer uma divisão em 2 grupos:

Hipster classe A: Utiliza roupas de um estilista/grife/marca de renome, que produz poucas peças de um item, quando não apenas uma única peça. Importa coisas do outro lado do mundo, que ninguém mais conseguirá encontrar nem no eBay, usa peças de um artesão “albino, do Himalaia, último descendente dos primeiros navegadores a encontrarem o império Inca”. Frequenta eventos super vips (perdão pela redundância!), prefere restaurantes exclusivos, viaja para destinos que ninguém conhece. Basicamente, um diferentão de luxo.

Hipster classe B: Monta seu estilo “único” mesclando roupas descoladas de lojas de departamentos (não podem esquecer das calças skinny), artigos de artesanato “exclusivo”, que encontra nas feirinhas ou de artesãos com os quais cruza pelo caminho.
Está preparado pra lhe falar uma infinidade de bandas desconhecidas, gosta de Kombis e bikes antigas, fala sobre cosmologia, contra-cultura, feminismo… Faz o que pode, com o que encontra, para criar sua própria identidade.

Hoje em dia, frequentar um evento cultural, feiras de artesanato local ou um show de bandas menos populares, é o mesmo que cair em uma máquina do tempo!

Como padrão você encontra mulheres de botas, por vezes meia arrastão, roupas cheias de detalhes feitos a mão, calças cintura alta, cabelos coloridas com cortes diferentes, que não economizam na extravagância ou na sensualidade, quando não os dois juntos para ficar mais gritante. Incomum é quando não estão com um perfume forte, afinal é necessário deixar sua marca por onde quer que estejam, é preciso a todo custo fazer com que as pessoas notem sua passagem, mesmo que tenha que usar esse perfume às 8hs da manhã de um Domingo de sol.

Homens, geralmente preferem camisetas cavadas ou camisas quadriculadas, calças mais justas, cores sóbrias, cachecóis e lenços, que em conjunto com as tatuagens que são praticamente item obrigatório, assim como barba, reproduzem um modelo de revista européia em cada esquina.
Sempre vale acrescentar no look relógio de bolso, pulseiras artesanais, chapéus, compondo o figurino ideal pra degustar uma boa Imperial Stout, em uma cervejaria ou pub (obrigatoriamente irlandês ou inglês).

Óculos também se aplicam a esse estilo descolado do século XXI, assim, indiferente de gigantes e minimalistas não podem deixar de ter muita personalidade.

O correto é não seguir padrões, criar suas próprias variações, mergulhar no guarda roupa da vovó, fazer de brechós e sebos (onde compra-se livros e vinis usados) seu destino preferido. Ironizam a mainstream apenas usando suas atitudes. Oh yeah!
Segundo uns: Um estilo casual em conjunto com uma mentalidade saudável. Ao meu ver uma vida gourmet.

Nada contra, muito pelo contrário, as pessoas buscarem sua identidade pessoal, ainda mais em tempos onde cada vez mais luta-se pelo direito de sermos o que queremos ser. Este já é um direito adquirido.
É totalmente válido as pessoas terem o desejo cada vez mais profundo de serem ímpares, mas convenhamos que ser hipster não é algo tão diferenciado assim, é apenas outra vertente de algum estilo de vida.
O que irrita são os personagens, os esteriótipos bizarros.

Quem define o que é ou não estranho claro que não sou eu e o que dita a moda dos hipster pra mim não é o mérito da questão. Ninguém tem a necessidade de tornar-se “normal” aos padrões alheios, muuito menos ao meu!
Quero chegar ao ponto da questão, a ignorância, onde pessoas querem ser diferentes, tornam-se iguais a outro grupo – apenas menor que o antigo – e acham isso distinto.

Se meu objetivo é ser diferente dos demais e para isso ingresso (consciente ou não) em um grupo/contexto que é diferente ao meu atual, automaticamente torno-me diferente, porém igual aos demais deste novo grupo/contexto.
A conta é simples, o resultado único e a ilusão é grátis.

Cada um tem a liberdade de ser o que quiser, como quiser, de comportar-se segundo os padrões da tribo que melhor lhe convir,  isso é bacana, é um parâmetro para que pessoas de gostos semelhantes identifiquem-se. Eu e todas as pessoas possuem a obrigatoriedade de aceitar os diferentes desejos e as peculiaridades de cada indivíduo, mas convenhamos que é deprimente ver alguém pensando ser o único exemplar de uma espécie! É essencial ter a noção de que você é parte de um todo, mais um na multidão, mesmo tendo suas particularidades.

Você pode se tornar único(a) através de atitudes, trejeitos, influencias familiares ou da cultura local. Pode tornar-se marcante pelo seu carisma, inteligência ou hobby.
Nenhum extremismo ao meu ver pode ser considerado saudável, seja religioso, cultural, alimentar, de gênero e a estes pode-se juntar também o extremismo pela criação de uma identidade pessoal. Nada mais lindo, sexy e atraente do que uma pessoa naturalmente radiante, naturalmente inteligente, que apesar de igual a todas as outras é naturalmente diferente. Se desejar seja hipster, ou o que quiser, mas seja consciente sobre a sua existência.

Sejamos mais nós mesmos e menos um personagem DIFERENTÃO.

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