A legalização da maconha no Uruguai

Mergulhar na cultura uruguaia é invariavelmente se deparar com o consumo legalizado da maconha.
Frequentemente a “noticia” volta a mídia com opiniões e comentários prós e contra, colocando diante a quem viajou para o país vizinho perguntas curiosas e piadas infames.

Depois de muito pensar sobre publicar ou não um post falando do consumo medicinal e recreativo da cannabis no “paisito”, acabei decidindo por abordar o tema, que ao meu ver não tem nada de polêmico.

Oficialmente a cannabis teve sua legalização no ano de 2013 com a Lei 19.172, complementada com o decreto 120/2014, onde desde então gera incompreensão de alguns e leva outros ao delírio, quando pensam em viver em alguma praia roots, vendendo a erva danada e vivendo de good vibes! Mas no mundo real a coisa é bem diferente.

Já pra começar vale informar que o consumo legalizado da cannabis no Uruguai se dá exclusivamente para uruguaios e/ou residentes e indiferente do caso apenas para maiores de 18 anos.

A legalidade do consumo se deu como fundamento para o governo poder regular todo o processo produtivo, desde o controle do plantio, da distribuição, venda e até o consumo na outra ponta (sem trocadilho!).
Lá, como aqui, até hoje não há um consenso sobre benefícios e malefícios que a legalização pode causar ao país e a sua população, mas por fim, apesar do inconformismo da maioria dos cidadão mais conservadores, a maioria do congresso aprovou a lei e assim tornou o consumo da maconha no Uruguai algo quase tão popular quanto no Brasil!

(Vale lembrar que aqui no Brasil ainda é proibido, ilegal!)

Bem verdade que é possível ver todo tipo de gente fumando livremente o “porro”, como chamam o cigarrinho, sejam os velhinhos na praça da capital, jovens em parques militares, na praia… lá como cá, os usuários não tem cara, cor, idade ou perfil social definido.

Porém lá a venda legal se dá apenas em estabelecimentos autorizados pelo governo e quem compra precisa estar previamente cadastrado como usuário para conseguir efetuar a compra.
Claro que estamos falando das vias legais, mas como diz a música, ” se você quer comprar é mais fácil que pão”, então obviamente ainda existe o tráfico e a venda clandestina, mas ai é outra situação.


Também deve-se dizer que na realidade, para quem reside no país a burocracia para o cadastro é quase nula, porém são dificuldades normais de um país que seguiu para um caminho de regulamentação, que está aprendendo com seus erros e acertos e que na verdade não segue muito diferente do Brasil, onde drogas como álcool e tabaco são legalizados, porém o contrabando fatura tanto quanto as grandes industrias. E só por comparação a esse papo de “realidade de lá – realidade de cá”, você sabia que existem países que proíbem o álcool/tabaco?

Depois das minhas idas e vindas, já ouvi todo tipo de pergunta e sempre me dá preguiça de tentar explicar algo que lá é tão banal ao ponto de passar desapercebido, mas que aqui no Brasil chama uma atenção…

As pessoas não fumam o tempo todo, em todos os lugares. Não houve um surto de novos usuários e não se vende maconha na padaria, no mercado, no farol…
No Uruguai existem três formas legais para se ter acesso a cannabis:

1ª Participando de algum clube (tipo as tabacarias de antigamente)
2ª Cultivando a erva em casa
3ª Comprando diretamente nas farmácias habilitadas (que praticamente inexistem)

O governo controla a quantidade que pode-se plantar/comprar, quem pode comprar onde, os tipos de erva e o número de membros que cada clube pode reunir.

Estão liberados para compra até 10 gramas semanais, com limite de 40 gramas mensais, o que equivale a 1 cigarro por dia, algo como “uma dose sociável”.
Justo por essa limitação que pouca coisa mudou no Uruguai. Continua sendo uma país organizado, limpo, conservador, onde quem já consumia pôde sair das sombras e para quem não era adepto não mudou nada, apenas se aperfeiçoa o respeito em aceitar os gostos particulares alheios. Coisa que não Brasil não acontece muito, indiferente do tema, onde as pessoas procuram impor seus gestos como exemplo, diferente do uruguaio que não se mete na vida alheia, por mais que não compactue.

As pessoas confundem legalização com liberação, ou pior, com incentivo. Falta discernimento e um pouco de conhecimento. Em busca de um pouco de informação que resolvi ir visitar um desses clubes.

As Grow Shop se popularizaram, assim como a onda do narguilé no Brasil. Visitei um espaço no centro de Montevidéu e em um breve bate papo pude ver a visão comercial da coisa.

Nas Grow´s vende-se de tudo, desde souvenires, cervejas, biscoitos, adubo, sementes, acessórios e claro, a erva. Encontra-se cannabis de diversas espécies, inclusive pode-se verificar a qualidade da planta matriz, que é cultivada dentro da própria loja. Você encontra de tudo, de ou para a maconha.

Entrar numa loja dessas é como entrar em uma loja dessas franquias de chocolates, não é nada demais.
O Uruguai, diferente do que pensam alguns, não é terra de Raul Seixas, o país não se transformou em uma grande sociedade alternativa. Os distúrbios  sociais e os problemas de saúde pública são os mesmos que eram antigamente, o que difere atualmente é a atitude do governo em educar e controlar um pouco mais a situação, onde transforma-se um comércio que sempre existiu, em fonte de renda e incremento aos cofres públicos, revertendo novamente para ações de controle e educação.

O tema é bem extenso, realmente divide opiniões e não possui verdades absolutas. Mas acredito que melhor do que criminalizar é conscientizar e controlar. Essa é a opinião de um blogueiro careta. 🙂

Maiores informações podem ser encontradas AQUI no site do Instituto de Regulação e Controle da Cannabis ou lendo integralmente o texto da lei sancionada AQUI.

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